O OPRÓBRIO

Vi várias de minhas amigas mais próximas recebendo os netos. A primeira foi Evany, cujos netos já são adolescentes! E depois muitas foram sendo promovidas. Bette, minha companheira constante na adolescência já tem seis preciosidades dessas. Restava a mim curtir os netos alheios, e o fiz na medida máxima do possível. Talvez o cúmulo tenha sido o fato de Solete, que teve os gêmeos dela seis meses após o nascimento das minhas gêmeas, ter netos também gêmeos. E eu a chupar o dedo.

Abro aqui espaço para um comentário meio longo. Nos tempos bíblicos, mulheres que não tinham filhos não tinham qualquer valor. O texto sagrado apresenta vários exemplos de mulheres estéreis que receberam a bênção divina de conceber. Na minha opinião, a história mais romântica é a de Raquel, esposa do patriarca Jacó. Os desdobramentos na saga do casal são dignos de qualquer novela. Ele se apaixona por ela à primeira vista. Quer se casar, mas o pai dela o obriga a trabalhar sete anos antes. Jacó o faz e, na primeira manhã após o casamento, tem uma surpresa nada agradável: o sogro deu para ele a filha mais velha, não a que ele amava. Resultado: Jacó trabalhou mais sete anos para conseguir se casar com a noiva certa. Pensa que tudo estava resolvido? De jeito maneira. Ela era estéril. E aí começa uma disputa com a irmã, envolvendo escravas também. Todo mundo, menos Raquel, dava filhos para Jacó. Se quiser ler tudo, está no final do livro de Gênesis. Vale a pena, a história é linda. Por fim, Raquel engravida e tem José, o filho predileto de Jacó. Vendo que deixara de ser estéril, Raquel exclama:

– Ah, Deus me ouviu e me livrou do meu opróbrio.

Contei tudo acima para chegar a essa única palavra.

Bem, no primeiro domingo depois que a notícia da gravidez da minha nora se tornou pública, estava eu na igreja. Nossa comunidade tem um hábito que alguns (como eu) amam e outros odeiam. Há um momento durante o culto em que nos cumprimentamos, enquanto o grupo de louvor canta. Como já falei, amo essa hora, e saio do meu lugar para abraçar todos que consigo. Sou das últimas a voltar. Bem, nesse domingo que citei, minhas amigas me cercaram, todas muito alegres com a notícia. E diziam:

– Até que enfim, não é? Você queria tanto um neto! Que bom, você vai ver como é gostoso! Que alegria!

E assim por diante. Todas ríamos, porque elas sabem da minha paixão por bebês e crianças. Brinquei com elas, dizendo que enfim esta livre daquela vergonha de não ter netos. Voltei para meu lugar e o culto continuou. Ao final, encontrei-me com Giselda, que já apresenta três troféus, com o quarto a caminho. Conversamos um pouco, contei do que tínhamos falado durante o culto, e ela soltou:

– Não é vergonha, é O-PRÓ-BRI-O!

Só rindo MUITO. Gosto de rir. Com alegria, então, é maravilhoso. Tendo o opróbrio retirado, então, nem se fala!

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Tirando casquinha da neta alheia

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